#22: Arcade
Et in Arcadia ego
O cartão passa na máquina, o ruído do crédito registrado soa. Eu escolho - nós escolhemos - um por um, nossas personas. Nossos olhos mantêm-se em paralelo, compartilhando a mesma direção. As mãos movem-se na harmonia das regras daquele quadro. Existe uma comunicação silenciosa, pode-se falar através do gesto. Ele me entende, eu o entendo. Podemos vencer juntos, ou falhar juntos, mas nunca só um: durante algum tempo não existimos em separado. Quando falamos, falamos para dentro dali. Podemos ser ouvidos, mas nossos signos se codificam, nossos olhos direcionam. Não há nada para trás de nossas costas. Há apenas um mundo, o mundo na tela, e os nossos arredores somem por um momento. Cumprimos o nosso objetivo o melhor possível, algumas vezes um pouco melhor do que outras. Às vezes - na maioria das vezes - falhamos, mas sempre juntos. Ao fim de tudo, em geral, recebe-se a satisfação de ter-se dado inteiro, e que apesar da derrota foi uma boa jornada. Não existem tantas parcerias com laços tão profundos como as que se fazem diante das telas.
Era como entrar numa maquete da própria sociedade. Escolher jogos por entre corredores, como ruas, era como escolher uma carreira. Decisão pensada e bem feita, disso dependiam nosso tempo e dinheiro. Havia competidores, em geral melhores que nós. Em geral maiores. Cada máquina tinha uma lista com os melhores rankeados. Eram doutores, referências. Nós, para deixar qualquer tipo de marca ali, tínhamos também que pontuar muito. Fliperamas. Eram assim. Sobreviver o quanto dava com o pouco dinheiro que tínhamos. Havia outros com muito mais dinheiro, e - consequentemente - muito mais pontuação. Como na vida.
Não víamos a luz do dia. Ouvíamos milhares de sons. Eram dez mil boombox ligados ao mesmo tempo. É do que mais sinto falta dali, os sons. Dava pra categorizá-los dentro daquela gorda massa sonora. Música, efeitos sonoros, gritos reais, gritos ficcionais, gritos de mães, de bichos, sons de botões, sons de todos os tipos de botões, dos estalos agudos do hóquei de mesa, de latas de refrigerante, de pacotes de salgadinho, de alavancas, de golpes repetidos nos botões, sons de máquinas sendo agredidas, apertadas, manipuladas, acariciadas, tec tec tec, sons brilhantes e especiais, de gatilhos de armas de plástico, de falas, de brados, de exclamações, dos pequenos diálogos acontecendo cada um em torno de seus pequenos mundos encerrados naqueles quadros brilhantes que apagavam por breves momentos todo o resto do mundo, todos os outros mundos. Fechando os olhos, poderia-se distinguir os diferentes mundos, para onde estavam, e com quem estavam, e com quantos eram, e de quem vencia e de quem perdia. E daria pra dizer de como eram, se debaixo d’água, se no asfalto. O som, se escutado, exibe a disputa, explicita a vontade. Pessoas circulavam entre esses mundos, essas telas. Havia a vaidade da vitória. Numa sala em especial, como uma arena, combatíamos com lasers, nossas armas emitiam sons espaciais de ficção científica enquanto o som ambiente tremia debaixo de uma música pesadíssima que era tocada em volume alto. Ele sempre estava no meu time. Quando acontecia de estar no outro, eu recusava combatê-lo.
Para onde foi? Para onde foi esse santuário ruidoso, em que mundo fomos nos meter. Meus pontos já não servem para nada, os rankings já estão muito altos, eu não tenho mais fichas. A apoteose da vitória, não sei mais se era um gosto inventado, se mesmo a derrota sabia bem. Aqui, em meio ao ruído sujo de carburadores e burocratas, ainda fecho os olhos e escuto sua voz ressoando claramente por entre as máquinas, um som distinto de todos os sons, um som de casa, um som real, chamando e apontando para a tela com olhos de desafio, convite e vontade: “Vi!”


